No tocante ao livro "A Intentona Comunista de 1935", de Nelson Werneck Sodré

A Intentona Comunista de 1935 é um livro da Série Revisão, que objetiva oferecer uma nova abordagem dos grandes temas da história. Este livro traz a visão apaixonada do seu autor, sintetizando de forma não superficial, embora não detalhando as fontes das informações, os acontecimentos que influenciaram na eclosão do levante, bem como as consequências decorrentes dele. Tudo isso em uma linguagem acessível.

Nelson Werneck Sodré foi professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército no período de 1948 a 1950. Além disso, foi diretor do Departamento de História do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Foi autor de outros livros como Formação Histórica do Brasil, Síntese de História da Cultura Brasileira, História da Literatura Brasileira, A Ideologia do Colonialismo, História da Imprensa no Brasil e outros, sendo identificado pela revista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) como um militar, comunista e marxista.

O Levante Comunista de 1935, como já é dito na própria “orelha” do livro, foi um dos acontecimentos importantes da história do Brasil moderno, embora seja pouco conhecido atualmente, tendo nascido das agitações político-militar dos anos 20 e como pano de fundo a Revolução de 30, mas que ainda ressente de estudos mais amplos, isentos e mais abrangentes, buscando deixar de lado visões impregnadas de ideologias.

A seguir, será realizada uma exposição sintetizada do livro "A Intentona Comunista de 1935", de Nelson Werneck Sodré, com breves opiniões e reflexões sobre aspectos específicos do assunto.

Para descrever a situação mundial, Sodré iniciou citando a crise de 1929, a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Comunista da Rússia, para contextualizar um período que considerou como sendo de intensas lutas, que caracterizavam um mundo conturbado no qual a luta ideológica entre o capitalismo e o comunismo se espalhou por diversos países, tendo na propaganda a principal arma para a conquista das consciências. O autor expôs que para combater o comunismo surgiram regimes, também totalitários, como o facismo e o nazismo, contando com o apoio da Igreja Católica, que buscava impedir o avanço do ateísmo comunista. Tais acontecimentos tiveram influência no Brasil.

Ao abordar a situação nacional, Sodré destacou que o Brasil se encontrava vulnerável decorrente da crise de 1929, que tragou as reservas do país e expuseram a atrasada base econômica de exportação. O modelo de substituição das exportações permitiu que a economia brasileira voltasse a crescer, ampliando o mercado interno e as relações capitalistas. No entendimento do autor, tal situação provocou o rápido crescimento da classe burguesa nacional, que buscou ampliar a sua participação no poder e no Estado, sendo necessárias reformas políticas que resultaram no movimento de 1930 no país. Para Sodré, embora o período entre 1930 e 1935 se apresentasse bastante tormentoso, não havia no Brasil uma situação revolucionária.

Tratando da agitação política existente na época, Sodré a considerou um sinal de vida na qual as contradições se desenvolvem, possibilitando o surgimento de propostas inovadoras. Entendeu, contudo, que quando as agitações rompem a “ordem”, resultam em ditaduras, sufocando o inconformismo que subverte a ordem. Apontou o período entre 1930 e 1935 como sendo um desses momentos ricos em manifestações desencontradas que ocuparam o cenário político e abalaram instituições do Brasil. Expôs que a luta entre o reformismo tenentista e o conservadorismo das oligarquias levou à Revolução Constitucionalista, na qual os derrotados na luta armada alcançaram a vitória política. Havia intriga política em todas as partes.

Ao tratar da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Sodré colocou essa organização como sendo, ao lado da Ação Integralista Brasileira, resultado da tormenta política da época, levando a luta política para a radicalização, incluindo conflitos urbanos. Expôs que a ANL, acolheu descontentes e inconformados, tornando-se uma continuação do anacrônico Tenentismo, ganhando, com a adesão do PCB, mais uma forma de agitação do que de partido político, que, ao colocar os quartéis nesse contexto, marcou-se com o “calo golpista”. Conclui o capítulo afirmando que de um grande movimento de massa, a ANL foi reduzida a poucos grupos de militares e comunistas agindo na clandestinidade, desaparecendo como frente política.

Sobre a Internacional Comunista (IC), Sodré expôs que essa organização surgiu do internacionalismo inerente ao marxismo e da necessidade de ação no exterior para a manutenção e segurança do regime Soviético. Buscava ser um partido mundial esquerdista. Com excessivo centralismo, exercia a coordenação das ações externas e das orientações técnicas dos diversos partidos comunistas filiados existentes em muitos países, analisando os seus problemas e submetendo-os às condições gerais da organização. Sodré expôs que, no seu VI Congresso, em 1928, a IC colocou o Brasil no grupo dos países dependentes, prescrevendo a revolução agrária, mencionando, em seu VII Congresso (1935) um movimento insurrecional dos camponeses no Nordeste.

Tratando do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Sodré apontou que a sigla buscava ser o espelho da classe operária, defendendo interesses da categoria. Visou, no seu primeiro congresso, o internacionalismo e o reconhecimento pela IC. Em seu início, era um partido pequeno, recrutado em grupos dispersos, com fraca experiência de luta e com débil influência na massa operária, sendo colocado rapidamente na ilegalidade e tendo passado por várias crises de direção e cisões. A IC realizava a coordenação das atividades partidárias do PCB com a ideia predominante de conquistar a hegemonia do movimento revolucionário que se desenvolvia no Brasil, aproveitando a formação da ANL para alcançar maior destaque político.

Relativo a Prestes e o PCB, Sodré apontou que a aproximação começou com o afastamento de Prestes do Tenentismo, tendo iniciado com contatos na Bolívia e na Argentina, quando ainda estava exilado. A aproximação e aceitação das ideias comunistas por parte de Prestes não significou a sua aceitação pelo PCB, pois a própria fundação da Liga de Ação Revolucionária por Prestes funcionava como partido contrário ao PCB e seus interesses hegemônicos. A aproximação de Prestes com elementos ligados às organizações da União Soviética, com a sua ida e de sua família para a Rússia, reafirmou a sua condição de comunista e possibilitou a ação da IC no sentido de determinar ao PCB que admitisse Prestes.

Acerca da preparação dos levantes, Sodré apresentou que o retorno de Prestes ao Brasil, acompanhado e reforçado por elementos da IC, foi a primeira ação, buscando a utilização da ANL como movimento de massa de ampla frente. Embora documentos e pronunciamentos não escritos de dirigentes da ANL não tratassem da luta armada, a inclusão de Prestes e de comunistas colocou a insurreição como objetivo, aproveitando-se da existência da indisciplina militar presente. Por meio de manifesto, Prestes conclamava a luta armada, pregando-se a guerrilha como o caminho a ser seguido. Entendia que o movimento deveria passar da propaganda e da agitação para o combate, pois este seria a única maneira do poder chegar às mãos do povo.

Em relação aos levantes, Sodré descreveu que em Natal a rebelião, que durou seis dias, iniciou no 21º BC, partindo, em seguida, para dominar a cidade, instalando um governo revolucionário. Em seguida, os revoltosos seguiram na direção de Mossoró e Caicó. Em Recife, o movimento rompeu principalmente no 29º BC, com luta no interior do quartel, seguindo na direção do centro do Recife e se posicionando no Largo da Paz, onde ocorreu o principal e decisivo combate, vencido pelos legalistas. Seguiu-se o levante no Rio de Janeiro, que contou com uma participação mais ativa de Prestes e uma conclamação do PCB. Os principais focos foram no 3º RI, na Praia Vermelha, e na Escola de Aviação Militar, na Vila Militar.

Sobre a repressão, Sodré colocou que a preparação do aparelho repressor iniciou já em dezembro de 1935 e que o ano de 1936 assistiu ao seu pleno funcionamento. Controle da imprensa, restrição de direitos e prisões foram algumas das ações adotadas. As prisões de integrantes da ANL, do PCB, da IC e de militares e parlamentares foi uma demonstração do “apetite” do aparelho repressor, que contou com o auxílio de agências estrangeiras e de uma justiça de exceção, resultando em expurgos políticos e expulsões do país. A prorrogação do estado de guerra, as intervenções em Unidades da Federação e a censura possibilitaram a escalada autoritária que resultou na instalação do Estado Novo, com nova constituição e fechamento do Congresso.

No tocante a difamação ideológica, Sodré contou que logo após o domínio da situação, os governantes e partidários iniciaram uma campanha de difamação, indicando que os rebeldes haviam praticado toda a sorte de violência. Com difamação constante, reforçada por cerimônias anuais estigmatizadoras, os revoltosos foram malsinados e qualificados como criminosos, marcados a ferro e fogo, fechando as portas dos quarteis mesmo após a anistia e tornando o comunismo infame. Destaca que todas as vezes que um lado político sente a necessidade de apelar para meios extremos, na defesa de seus interesses, apela para o extremo do outro pólo político, distorcendo a democracia. Tanto o comunismo, como o anticomunismo, utilizando-se do extremo, servem à ditaduras.

Na obra, uma cronologia apontou acontecimentos ocorridos em três anos: 1935, 1936 e 1937. Em 1935 foram citadas 53 datas, iniciando em 23 de janeiro, com a notícia publicada em “A Plateia”, do regresso de Prestes ao Brasil para dirigir a ANL, e terminando em 31 de dezembro, quando foi decretada a perda de posto e patente dos oficiais envolvidos na “intentona”. Em 1936 foram citadas 16 datas, iniciando em 9 de janeiro, com as instruções reguladoras à Comissão de Repressão ao Comunismo, e terminando em 29 de dezembro, com a renúncia de Armando Sales Oliveira ao governo de São Paulo. Em 1937 foram citadas 31 datas, iniciando em 5 de janeiro, com a posse de Cardoso de Melo Neto como governador de São Paulo, e terminando em 3 de dezembro, com a dissolução da AIB.

Como bibliografia, são indicadas 33 obras. Tratando da insurreição especificamente, o autor cita 3. Sobre o PCB aponta 9 livros como importantes, seja pela documentação que reúne ou pelos ensaios de história do partido. Para o melhor conhecimento do quadro geral da formação do PCB e dos acontecimentos ligados aos levantes de 1935, o autor destaca 12 obras. Para aspectos ligados a Prestes e a sua biografia, considera conveniente ler 2 livros. Para o estudo da Internacional Comunista (IC) destaca 3 obras, sendo que uma delas aborda o caso específico da América Latina. Para conhecer o problema do levante de 1935, aponta o trabalho de Dario Canale. Para conhecimento dos fatos subsequentes ao levante e que levaram ao Estado Novo, indica um trabalho de Hélio Silva.

O levante comunista de 1935 demonstrou-se um movimento carente de organização, pois não conseguiu articular os três focos de forma simultânea e nem tão pouco envolver outros grupos da sociedade, restringindo-se às ações de militares em alguns quarteis. Como o próprio autor destaca, o movimento armado, nos seus três focos, alimentou-se de condições locais, vivendo do comprometimento e da participação de reduzido número de militares. Nem mesmo os operários e as demais classes trabalhadoras aderiram ao movimento.

Em síntese, a situação mundial de crise econômica e embate ideológico e político entre o comunismo e o capitalismo influenciou a situação nacional, promovendo um quadro de agitações políticas. O levante comunista de 1935 foi um erro político provocado por uma ideologia que tinha em suas bases a violência, a incapacidade de convivência com visões opostas, a intolerância e a busca pelo poder de forma hegemônica, com uma visão estatizante e totalitária. As medidas radicais que eram buscadas pelo levante foram provadas como ineficazes pela história, promovendo o fracasso econômico e empobrecimento das populações.

A agitação política no país era crescente, tendo organizações como a Aliança Nacional Libertadora reunindo integrantes de outros grupos como a Internacional Comunista e o Partido Comunista Brasileiro, lideradas por Carlos Prestes, recém chegado da União Soviética, para preparar os levantes e executá-los de forma a derrubar o governo e tomar o poder à força. A violência do levante e a forma radical de pensamento apresentada pelos seus integrantes trouxe uma rejeição da população à causa por eles defendida, tendo sido utilizada pelo governo para desencadear uma repressão, seguida de propaganda anticomunista.

Finalmente, a obra apresenta a visão do autor sobre os acontecimentos, utilizando uma linguagem bastante influenciada por uma ideologia que se fundamenta no materialismo marxista, deixando a sua análise tendenciosa. O livro foi publicado antes da abertura dos arquivos da União Soviética, conforme é possível verificar no livro Camaradas de William Waack. Com a abertura dos arquivos, pode-se fazer alguns contrapontos de aspectos trazidos pelo autor.

REFERÊNCIA

SODRÉ, Nelson Werneck. A Intentona Comunista de 1935. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986.

WAACK, Willian. Camaradas: nos arquivos de Moscou: a história secreta da revolução brasileira de 1935. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 

IPEA. Perfil - Nelson Werneck Sodré. Revista Desafios do Desenvolvimento. 2011. ano 8. n. 68. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=2603:catid=28&Itemid=23. Acesso em: 17 set. 2022.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

No tocante ao livro “Críton (o dever)”, de Platão.

No tocante ao livro “Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels

No tocante ao livro “Platão em 90 minutos”, de Paul Strathern.